Sinopse:“Fale sobre você... Queremos saber o que
tem a dizer.” Desde o primeiro momento, quando começou a estudar no
colégio Merryweather, Melinda sabia que isso não passava de uma mentira
deslavada, uma típica farsa encenada para os calouros. Os poucos amigos que
tinha, ela perdeu ou vai perder, acabou isolada e jogada para escanteio. O que
não é de admirar, afinal, a garota ligou para a polícia, destruiu a tradicional
festinha que os veteranos promovem para comemorar a chegada das férias e, de
quebra, mandou vários colegas para a cadeia. E agora
ninguém mais quer saber dela, nem ao menos lhe dirigem a palavra - insultos e
deboches, sim - ou lhe dedicam alguns minutos de atenção, com duvidosas
exceções. Com o passar dos dias, Melinda vai murchando como uma planta sem água
e emudece. Está tão só e tão fragilizada que não tem mais forças para reagir.
Finalmente encontra abrigo nas aulas de arte, e será por meio de seu projeto
artístico que tentará retomar a vida e enfrentar seus demônios: o que, de fato,
ocorreu naquela maldita festa?
"Fale!" foi um livro impactante. Já tinha ouvido falar muito
bem dele, mas mesmo assim quando comecei a ler foi bem melhor do que eu já
imaginava. A Melinda é uma garota jovem, ainda no ensino médio e que sofreu um
trauma terrível, durante uma festa dos veteranos. E ela não conta para ninguém
o que aconteceu. Ela ligou para a polícia no dia e fugiu. Todos a consideram
agora uma fofoqueira, x9, estraga prazeres, etc. As pessoas começam a
maltratá-la, jogam bolas de papel, são hostis e não falam ou sentam com ela. E
Melinda vai se fechando cada vez mais.
“É mais fácil não
dizer nada, fechar a matraca, passar o zíper, calar o bico. Toda aquela
babaquice que você escuta na TV sobre se comunicar e expressar o que sente não
passa de uma mentira. Ninguém quer realmente ouvir o que você tem a dizer.”
Mesmo suas melhores amigas não falam mais com ela e isso faz com que se
sinta cada vez mais retraída e ela praticamente para de falar.
Seus pais estão sempre discutindo e não sabem o que fazer com a filha que
agora é "rebelde" (pelo menos é o que eles pensam), tira notas
baixas, se tranca no quarto e não quer falar. Acham que é uma fase, que está
apenas sendo uma adolescente difícil e alguns puxões de orelha vão se ser
suficientes para a pôr de volta nos eixos.
Melinda descobre um quartinho no colégio e começa a passar lá alguns
períodos de aula. Vem sendo cada vez mais difícil fingir normalidade quando
tudo dentro dela quer gritar.
“Não dá para saber
quando as pessoas estão mentindo.”
Ela está acuada, com vergonha, culpada e com medo. Medo de que ninguém
acredite nela. Medo que ninguém se importe. Medo que aconteça novamente. A
maior parte dela quer falar, quer dizer o que aconteceu, mas ela não consegue.
Seus lábios estão feridos, em carne viva porque sempre que a verdade tenta sair
por eles, ela engole de volta.
“Quando as pessoas
não se expressam, vão morrendo aos poucos. Você ficaria chocada se soubesse
quantos adultos estão realmente mortos por dentro, vivendo sem ter ideia de quem
são, só esperando que um câncer, um infarto ou um caminhão acabe com eles. É a
coisa mais triste que conheço.”
Melinda não sabe mas, se inscrever na aula de artes vai mudar tudo, porque nem sempre
para falar precisamos de palavras e alguém vai escutar seu pedido de socorro
silencioso e ajudá-la a colocar a verdade para fora.
“Do que as semente
precisam para germinar: Se forem plantadas numa profundidade grande demais, não
atingem a temperatura correta na hora certa. Se forem colocadas muito perto da
superfície, serão devoradas por aves. Se chover demais, vão se encher de fungos.
Se não chover o bastante, secarão. E mesmo se conseguirem germinar, podem ser
sufocadas por ervas daninhas, desenraizadas por cachorros, esmagadas por bolas
de futebol ou asfixiadas pelos escapamentos dos carros. É impressionante que sobrevivam.”
Nós vemos a mudança de Melinda acontecer como as próprias estações,
primeiro ela ainda está em choque e assustada demais, depois ela fica
abatida e deprimida por acreditar que ninguém se importa com ela e que ninguém
vai querer ouvi-la. A seguir vemos seu florescimento, seu crescimento como
pessoa e como mulher e quando ela finalmente fala, todos vão ouvir.
“Seja a árvore.”
Por fim o livro termina com uma entrevista com a autora e algumas
questões para refletir. É maravilhoso e devia estar na biblioteca de todos os
colégios.
A EDITORA LANDMARK no ano em que se comemoram os 240 anos do nascimento da escritora Jane Austen, irá sortear a partir do mês de abril livros da autora via paginada LANDMARK no facebook. De abril até novembro serão sorteados três livros por mês, um para cada internauta, e em dezembro, mês do nascimento da autora, iremos sortear a coleção completa para um ganhador.
Como eu estou fazendo o desafio da Jane Austen, achei interessante compartilhar com vocês esse sorteio que a editora Landmark vai fazer durante o ano na sua página
Para informações e participar do sorteio da Editora é só clicar aqui
Vale ressaltar que as edições da Landmark são de capa dura e bilíngue.
"E VOCÊ CONSEGUIU O
QUE QUERIA DESTA VIDA, APESAR DE TUDO?
CONSEGUI.
E O QUE VOCÊ QUERIA?
CHAMAR-ME
DE QUERIDO, SENTIR-ME AMADO NESTA TERRA."
PSIUUU,
ALERTA DE SPOILER!
Na verdade, um monte de spoiler haha.
Em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), acompanhamos a saga
de Riggan Thompson (Michael Keaton), um ator famoso por ter interpretado o super-herói
Birdman há 22 anos, e que não foi capaz de realizar um trabalho expressivo
durante esse longo período. Buscando uma forma de ser reconhecido, Riggan
aposta as suas últimas fichas em uma peça da Broadway, assumindo a direção e
atuação de sua própria adaptação para um conto do escritor Raymond Carver. Entretanto,
o ator enfrenta inúmeros contratempos durante a preparação da peça, sendo o
primeiro deles a substituição de um dos atores do elenco pelo talentoso, e
presunçoso, Mike Shiner (Edward Norton). Além da recepção negativa da crítica
teatral e do provável resultado negativo de bilheteria, Riggan também se
encontra diante de problemas na esfera pessoal: uma possibilidade de recaída de
sua filha, que acabara de sair de uma clínica destinada a dependentes químicos,
e a suspeita de gravidez de Laura (Andrea Riseborough), sua namorada. No meio de todo esse tormento
colossal, Riggan ainda é perseguido pela voz de Birdman, que age como a sua
consciência e insiste em criticá-lo por não ter prosseguido com a franquia que
o deixara famoso e que permitiria que ele tivesse seu sucesso garantido.
Na
trajetória de Riggan Thompson poderíamos enxergar a história de carreira do
próprio ator Michael Keaton, apagado por exatos 22 anos, da mesma forma que o
personagem que interpreta. Enquanto na vida real temos Keaton e seu trabalho
como Batman, na obra do cineasta Alejandro Iñárritu nos deparamos com um Riggan assombrado pelo
personagem Birdman. A interpretação de Keaton é visceral, e, na minha opinião, uma
das melhores já realizadas pelo ator. O fato de construir um personagem sem
obter referências externas, a não ser a própria vivência de sua carreira, já
revela o seu enorme talento.
Dentre os inúmeros panoramas discutidos em Birdman, é possível notar na trama a presença de três esferas que se chocam constantemente: o Cinema, o Teatro e a Tecnologia – no caso, do domínio da internet na contemporaneidade. Riggan Thompson representaria o Cinema dos chamados blockbusters, voltado para o consumo. Tal representação se choca, a todo o momento, com a figura do ator Mike Shiner, intepretado por Edward Norton – que, vale lembrar, está impecável no filme! – personagem que agiria como representante do Teatro. Mike Shiner, em seu comportamento arrogante e desinteressado para com a opinião do público, demonstra a sua opinião de que o Teatro seria o meio capaz de reunir atores realmente comprometidos com a Arte. Shiner, em uma das cenas, diz importar-se apenas com a opinião da crítica, que no filme é personificada na figura de Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), uma crítica teatral de Nova York que despreza Riggan e, nas suas palavras, “tudo o que ele representa”. Tabitha mostra-se, no momento em que Riggan a enfrenta, irredutível, declarando diversas vezes que irá destruir a peça adaptada por ele antes mesmo da sua estreia.
Já Sam (Emma Stone), filha de Riggan, representaria a chamada geração Y, movida pela tecnologia e pela facilidade da transmissão de informações. Percebemos até mesmo o discurso afiado da personagem em um momento de discussão com o pai, afirmando que, ao rejeitar os mecanismos proporcionados pelas redes sociais, Riggan é que não existiria no contexto atual. Nas palavras de Sam, o fato do pai investir na peça teria como única justificativa uma tentativa de estar novamente na mídia, afastando-se, portanto, de um comprometimento com a Arte. De fato, a cena em questão é forte não só pela carga emocional depositada pelos atores, mas também pelas falas apresentadas.
É de suma importância destacar o trabalho de interpretação de Emma Stone, magnífica no papel de filha problemática que busca pelo amor de seu pai:
Riggan: “É
minha chance de fazer algo que signifique alguma coisa.”
Sam:
“Signifique algo para quem? Você teve uma carreira, pai. Antes do terceiro
filme de quadrinhos. As pessoas esqueceram quem estava por trás do pássaro.
Você faz uma peça baseada em um livro escrito há 60 anos. Para pessoas brancas,
velhas e ricas, que só se preocupam com o lugar que vão tomar café com bolo
quando acabar. Só você se importa! E, falando sério, pai, você não faz isso
pela arte. Você faz isso, pois quer ser relevante de novo. E adivinha? Há um
mundo lá fora onde pessoas lutam todos os dias para serem relevantes. E você
age como se não existisse! Coisas acontecem em um lugar que você ignora. Um
lugar que, aliás, já se esqueceu de você. Quem diabos é você? Você odeia
bloggers, tira sarro do Twitter, nem tem um Facebook. É você que não existe.
Você faz isso porque morre de medo, como todos nós, que você não importe. E
sabe do quê? Tem razão, você não importa. Isso não é importante. Você não é
importante. Acostume-se.”
Logo
no início do filme, é possível notar um pedaço de papel colado no espelho à
frente de Riggan, com a frase “Uma coisa é uma coisa e não o que dizem
daquela coisa”. O fato de Riggan tentar prosseguir com a sua carreira em outra
vertente, que não aquela pela qual ficara famoso no passado, de certa forma
despertou a ira daqueles que já pertenciam a esse novo mundo, o mundo teatral. A
crítica nova-iorquina Tabitha Dickinson rejeita tudo aquilo que Thompson
representa, assim como a sua tentativa de adentrar no mundo em que ela está
inserida. A sua postura inflexível ao afirmar que irá produzir uma crítica
destruidora da peça dirigida, estrelada e escrita por Thompson, demonstra – de
forma um tanto quanto caricata – um preconceito que ainda é bastante latente
nesse meio. Na cena em questão, é possível notar a presença de diálogos cortantes,
diretos no que tange aos trabalhos realizados tanto por Tabitha quanto por Riggan. Nas palavras do personagem de Keaton, não há
na crítica elaborada por Tabitha abordagens sobre “técnica, estrutura e
intenção”; trata-se apenas de uma fórmula, pré-estabelecida, construída de
maneira “preguiçosa”:
Tabitha: “(...)
Eu não ouvi uma palavra ou sequer assisti a pré-estreia, mas após a estreia de
amanhã, escreverei a pior crítica que já leram. E vou acabar com a sua peça.”
Riggan: “Gostaria
de saber o porquê.”
Tabitha: “Porque
odeio você e tudo o que você representa. Intitulados, egoístas e crianças
mimadas. Totalmente destreinados, desconhecedores e despreparados para produzir
arte de verdade; entregando prêmios um ao outro por cartum e pornografia, e
gastando seus ganhos nos fim de semana. Bem, este é o teatro. Você não pode vir
e fingir escrever, dirigir e atuar na sua peça de propaganda sem passar por mim
primeiro. Então, boa sorte.”
Riggan: “O
que tem que acontecer na vida de uma pessoa para acabar se tornando um crítico?
O que está escrevendo, outra crítica? Ela é boa? É? É ruim? Você assistiu? Deixe-me
ler isso (...) 'Inexperiente'. Isso é uma etiqueta. 'Desbotado',
etiqueta. 'Marginal'. Marginal, está brincando? Parece que precisa de
penicilina para limpar isso. Isso não passa de etiquetas. Você só sabe
etiquetar tudo. Você é uma filha da mãe preguiçosa. Você é preguiçosa! Você
sabe o que é isso? Você nem sabe o que é isso, não sabe. Sabe por quê? Você não
pode ver isso se não rotulá-la. Você confunde esses sons na sua cabeça com
verdadeiro conhecimento.”
Tabitha: “Acabou?”
Riggan: “Não,
não acabei. Não há nada aqui sobre técnica, sobre estrutura, nada sobre
intensidade. Só opiniões de merda feitas por comparações de merda. Você escreve
alguns parágrafos... Sabe do quê? Nada disso custou nada a você. Você não está arriscando
nada, nada. Eu sou a porra de um ator. Essa peça me custou tudo. Então, é o
seguinte: pegue essas maliciosas e covardes críticas de merda, e enfie no seu
enrugado... rabo apertado.”
Tabitha: “Você
não é um ator, é uma celebridade. Sejamos claros nisso. Acabarei com sua peça.”
Outra
personagem que me chamou bastante a atenção, pelo transbordamento de emoções,
foi Naomi Watts. Leslie, a personagem vivida por Watts, sempre sonhara em ser
uma grande atriz da Broadway. Entretanto, mesmo alcançando esse que seria o seu
maior sonho, Leslie se sente vazia e da mesma forma que era há anos atrás: uma
garotinha frágil e sonhadora, que ainda luta pela aceitação e pelo reconhecimento no
meio artístico. E é através desse sentimento de Leslie que percebemos a tamanha
fragilidade que afeta atores não só dos teatros, mas também de outras
vertentes.
Nessas
inúmeras facetas que compõem Birdman, é possível notar também o embate não só
do Teatro e do Cinema blockbuster,
mas também desse próprio Cinema com o do Cinema chamado de cult. E a questão de todos esses embates gira em torno de algo que
muita das vezes é feito de forma inconsciente não só por parte da crítica, mas
também pelo próprio público: a rotulação; e com esse problema de rotulação,
muitas experiências interessantes não são vivenciadas, justamente porque em
muitos casos, não há um interesse por parte do indivíduo em sair de sua "zona
costumeira".
Além
do forte elenco que o compõe e do roteiro, outro ponto a se levantar sobre
Birdman repousa sobre as técnicas utilizadas, como o falso plano-sequência, por
exemplo, que atribui ao filme um ar de continuidade - uma característica que poderia remeter ao próprio ambiente teatral. O movimento da câmera, verdadeira voyer, ziguezagueando pelos corredores do teatro e pelas ruas de Nova
York – e aqui eu destaco a corrida de Michael Keaton apenas de cueca no meio da
multidão da Times Square hehe –, concedeu ao filme um caráter único, fazendo
toda a diferença no resultado final. O “plano-sequência” é quebrado apenas após
o tiro dado por Riggan, contra o seu próprio nariz, no último ato de sua peça. Reforço
que o trabalho de montagem promovido em Birdman foi admirável, os cortes
realizados durante as filmagens se tornaram quase imperceptíveis após a edição,
dando a noção de um único só take. Esse incrível projeto de montagem se uniu ao
perfeito trabalho de fotografia, criando uma ambientação fluida e natural. Outro
ponto interessante está na escolha da trilha sonora, composta basicamente
por uma bateria que soa de forma descontínua e improvisada, atuando até mesmo como "personagem" na trama.
Um
aspecto chamativo da obra de Iñárritu diz respeito também ao uso de elementos surrealistas,
como os poderes de Riggan, por exemplo, que criaram uma aura capaz de
interferir até mesmo na camada realista do filme. E é imerso desse misto de o que é real
e o que é fantástico, que se encerra Birdman. Ao acidentar-se, Riggan acorda em
um leito de hospital, e percebe que tudo o que ele mais almejara é, por fim, conquistado:
o amor do público advindo do sucesso de sua peça. E vitorioso, ele
ascende às alturas, semelhante a um pássaro alçando voo. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é um filme maravilhoso em diversos aspectos, além de ser um trabalho original, crítico e extremamente poético do diretor Alejandro Iñárritu.
E vocês, o que acharam de Birdman? E da sua cena final? Gostaríamos muito de saber a opinião de vocês!
Sinopse: Jane Eyre é uma menina
órfã que vive com sua tia, a Sra. Reed, e seus primos, que sempre a maltratam.
Até que, cansada do convívio forçado com a sobrinha de seu falecido esposo, a
mulher envia Jane a um colégio para moças, onde ela cresce e se torna
professora. Com o tempo, cresce nela a vontade de expandir seus horizontes. Ela
põe um anúncio no jornal em busca de trabalho como governanta. O anúncio é
respondido pela senhora Fairfax, e Jane parte do colégio para trabalhar em
Thornfield Hall.
Nossa, que livro! E, por Deus, quanto sofrimento! Mas lindo demais.
Ele é narrado pela própria Jane, às vezes mais parecendo uma biografia do que uma obra ficcional. A autora em certos momentos se dirige diretamente ao leitor, nos envolvendo ainda mais na trama e nos fazendo participantes ativos no enredo. Eu que já tenho um gosto por literatura clássica e linguagem rebuscada, amei a narrativa de Charlotte. É difícil ver a Jane apenas como personagem, na minha cabeça ela está tão viva quanto eu ou você que lê essa resenha, tamanha é a força da personalidade dessa personagem.
Uma coisa que a literatura nos faz, especialmente os clássicos, é nos dar a visão e os conceitos que aquele determinado personagem tem sobre a vida no todo. Ele te faz pensar, analisar e então decidir se concorda com aquela visão ou não e por quê. Foi assim que me vi em Jane Eyre.
“Ele me fez amá-lo sem nem ao menos me olhar.”
Jane, desde criança, era bastante inteligente, tinha muita presença de espírito, apesar de ser uma criança tímida e retraída, ela amava ler e aprender, por isso, apesar de jovem estava muito à frente das outras crianças. Ela, por vezes, era muito franca. Isso chocava e causava repúdio de muitos adultos da época, especialmente de sua benfeitora, uma vez que Jane era órfã. Era inimaginável que uma criança falasse com tal empáfia à um adulto, especialmente uma criança órfã, dependente da boa vontade dos outros.
“É melhor aguentar com toda paciência um castigo que só você sente do que cometer um ato cujas consequências daninhas se estenderão a todos que lhe são ligados.”
A Sra, Reed começa então a considerá-la uma criança fingida, mentirosa e má. Ela era uma mulher dura, cheia de pompa e afetação. Ou seja, ela se achava. E considerava seus filhos os próprios anjos de Deus na Terra. Mas John, filho da Sra. Reed era um menino de má índole, dado à crueldade e atos mesquinhos e sempre costumava maltratar a jovem Jane, mas a mãe sempre fingia não perceber, pois para ela, os filhos eram perfeitos. Até que Jane passa a revidar e parte para cima de John. Então a Sra. Reed começa a pensar que a menina é a verdadeira cria do demônio e depois de mais atos de crueldade com a pequena, finalmente, um médico, com pena da menina, aconselha a Sra. a mandá-la estudar fora. Mas de certa forma o mal já lhe havia sido feito, em várias ocasiões observamos a baixa estima que Jane tem por si mesma e apesar de sempre tentar se animar, ela é sempre muito racional e sempre faz questão de reafirmar a pouca importância que tem.
“A vida é curta demais para ser gasta com animosidades, só pensando nos acontecimentos ruins.”
Obviamente ela procura colocar a menina na pior escola possível, mas apesar das provações constantes que passa em Lowood, Jane também vive uma das melhores épocas de sua vida. É lá que ela recebe educação e se torna uma mulher "prendada" e bem instruída. É lá que faz sua primeira amiga, a Srta. Helen que a ensina um pouco sobre aceitar a vida que tem e não se deixar esmorecer.
“É fraqueza e tolice dizer que não suportaria algo que seu destino dita que é preciso ser suportado.”
Também faz amizade com a Srta. Temple, uma das figuras de maior autoridade entre as instrutoras da instituição, mas quando esta se casa, Jane decide que é hora de conhecer o mundo por trás daquelas paredes de pedra que a encarceraram durante tanto tempo.
“Sei que devo esconder meus sentimentos, preciso reprimir minhas esperanças, entender que ele não pode gostar de mim. Tenho, portanto, que repetir o tempo todo que estamos separados para sempre. E apesar disso, sei que, enquanto pensar e respirar, vou continuar a amá-lo.”
É assim que Jane vai parar em Thornfield, para trabalhar como preceptora. Apesar de não ser um lugar tão exótico, para quem nunca viu nada do mundo, aquele era o começo de uma grande aventura. A pobre garota órfã, agora iria começar uma vida nova. E enfrentaria outros desafios, que jamais poderia prever.
“Eu não tivera intenção de amá-lo. O leitor sabe bem que eu tentara a todo custo extirpar de dentro de mim as sementes daquele amor que nascia. E agora, ao revê-lo por um instante, elas reviviam de forma espontânea, em toda a sua força.”
Em livros clássicos, como Jane Eyre, Orgulho e Preconceito, entre muitos outros, não temos cenas picantes ou explicitas sobre o matrimônio ou as atividades conjugais, até porque para a época isso jamais seria permitido. Mas temos tanto sentimento... As palavras, que ferem e ao mesmo tempo curam, nos arrebatam com doçura e tristeza. Amor e ressentimento. Muitas vezes eu sinto falta disso nos livros hoje, foi o que eu percebi lendo Jane Eyre. Nós temos muito sexo, mas às vezes pouco sentimento. Há uma falsa sensação de intimidade entre os casais. Às vezes um olhar é o suficiente para acalentar a alma e despertar o espírito, mas as pessoas perderam um pouco esse toque na escrita. Talvez, inclusive, na vida cotidiana. Os clássicos me lembram sempre disso, talvez por isso eu goste tanto.
“Meus olhos se voltaram para ele, sem querer. As pálpebras se erguiam por conta própria, e as íris nele se fixavam. Eu olhava e sentia um prazer agudo em olhar - um prazer raro, embora doce-amargo. Precioso, mas com uma ponta de agonia. Um prazer como o de um homem morto de sede deve sentir ao perceber que o poço até o qual se arrastou tem água envenenada, água que ele, mesmo sabendo disso, beberá de qualquer forma.”
Somos uma equipe de apaixonados pela leitura que resolveram se juntar e falar sobre o que mais amamos!
Tudo o que é importante acontece Entre Vírgulas. ;)